terça-feira, 12 de julho de 2016

Norte de vento noite


Norte de vento noite, aqui o vento
vem escuro escondendo no breu
o peso e a nuance.
Nem sereno cerúleo, nem roxo
carregado.
Aqui vem lento, de preguiça indormível
vem no encontro, sacudindo dos corpos
o equilíbrio e gravidade.
Vem lúdico, lúgubre, lúbrico
escorregadiço.
O vento vem abrigo. Vaza
nas esquinas anunciando, das Bibianas,
a dor, o desvario.
Resiste à dança e enquanto busca chão
ricocheteia
O vento chama: delírio.

Impostor disfarçando a letargia.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

cada mar

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sábado, 7 de maio de 2016

Ressonância magnética



Vejam só, uma máquina de alta precisão que desenha, em detalhes cores e curvas, os traços mais ínfimos de nosso interior pelo encontro da radiação com a matéria, de tão precisa, ao mínimo movimento daquele que é desenhado, borra a imagem. Temos então, um erro de precisão? Ou um problema de definição? Para que existe o foco? Quando alguém desenha um objeto que está à sua frente, a imaginação completa os micromovimentos que o objeto acaba por fazer, ou mesmo, delineia sombras não tão precisas a partir daquelas que, com o passar do tempo, se transformaram. O preciso é o maior detalhe, ou o detalhe visível? Não seria preciso, para sermos mais precisos, deixar que os sons da rádio FM que procuram transcrever o corpo, ao invés disso, o traduzissem?



Entrando no tubo, da câmara de precisão, mesmo antes dos sons que proliferam, um empuxo. O corpo parece aterrissar, descomprimir, adaptar-se à gravidade. Mas está, para os olhos, parado. Para manter a integridade na imersão dos sons, melhor prevenir-se com uma rostificação: isso parece: rock, funk, música eletrônica. Um dos ruídos, uma música budista infindável e em alto volume preenche, ocupa o crânio, balança o fígado. Ritornelo?



Até que, de repetente, sugeriram suspender a sensatez e sistematizar sentidos somente por sentenças. Pensar por palavras parecidas, principiando pelo p., P de Paulo. Paulo procurava patos pelo plebiscito. Plenárias plenas de plebeus produziam problemas próprios. Era esse elo então errático. Eu encontrei elefantes enquanto enviava emissores escaparem. Amanhã amantes armarão armadilhas azedas antes de acalmar as almas. Aquele áudio alarmante ansiava acusar aleluias. Até amanhã amassaria azaleias amarelas?

quarta-feira, 29 de julho de 2015

...


o silêncio e o zumbido estão na cabeça ao mesmo tempo. não é exatamente no mesmo lugar. existe um momento de silêncio a b s o l u t o
e um cigarrear que vem dos ouvidos. ele entra pelo direito e é como se criasse um vácuo no esquerdo. mas, não se engane. por que a cabeça. ela não fecha. ela não acabaqui. ela se conecta com uma luz imensa branca, com um brilho que chega até o peito e alcança uma altura que não é altura essa. também não se engane. tampouco sei o que é engano... dizia: não se enganem por que o rumor, ele não vem só para rumorear, só como o avesso do silêncio. ele vem como uma calma, como uma cama. ele passa, eu já disse, pelos ouvidos e na parte baixa do cérebro, talvez por trás. ele é o pescoço-tronco que mantém esse constante silvo.
o silêncio é uma imensidão que sobe. alguém pergunta: o que você vê ao fechar os olhos? eu sinto esse silêncio. e, abrindo caminho, surgem raios de cores na escuridão.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Golpe da direita




Caminha em direção às barcas procurando um lugar para parar. Há muita gente esse horário no terminal Araribóia. Começa a achar que há mais do que o normal. A bolsa pesada. Pára. Apóia a bolsa no chão. Fixa numa posição. Posiciona o corpo, a coluna, a barriga pra dentro, encaixa o quadril pra não pesar a lombar, tenta relaxar os ombros. Muita gente. Percebe que não está com o corpo posicionado na mesma direção que a maioria das pessoas, está fazendo uma diagonal. Uma diagonal também com a entrada das barcas. Na verdade está na direção da barca, mas não do portão onde as pessoas entram. Ali de onde está pode ver exatamente, numa linha reta, o local onde as barcas atracam. Mas para entrar ficam retas para o portão e depois fazem uma curva, uma outra caminhada. Ali parada, um pouco em diagonal em relação às outras pessoas, pensa na posição da dança, quando caminham no palco, no estrado, no espaço, às vezes param cada um numa direção, a professora fala do olhar, para que se posicionem. Começa a perceber o posicionamento das pessoas ao seu redor, um casal beijando-se escorado na coluna do seu lado direito, um senhor de terno e mochila na sua frente que conversa no whatsapp, os sons, ouve o atracar das barcas, os anúncios das que chegam e os anúncios gerais do termial – é por aqui que a gente chega lá – a sua posição em relação aos outros, pela parte de trás de seu pescoço ouve um homem que fala ao celular – Sim. Confirmada. O lote era nove, oito, quatro, três, quatro, oito, cinco, três, oito, quatro. Sim. Claro. Aqueles eram outros. Sim. Depakote, Lamotrigina, Topiramato, Carbamazepina. Carbamazepina – Medicamentos, logo agora com toda essa gente, os sons e luzes. Não está nada bem. Se sente estranha. Ouvir essa conversa bem agora. Deve ser um sinal. Lembra do posicionamento. Respira. Não muito fundo. Pela barriga, mas sem perder a postura. Aquela que a professora da dança afro ensinou. Expande o olhar. A barca ainda não chegou. Olha pra um lado. Olha pro outro. Para cima. Os movimentos da cabeça e corpo vão como num fluxo, agora o olhar já está meio borrado, não sabe se deveria ter virado a cabeça assim, e se ficar tonta? Os estímulos visuais aumentaram. Mas a percepção da sala também, é um octaedro. Agora vê a tela de anúncio dos horários acima da sua cabeça, próxima barca 18h20, ai céus quanto tempo pra isso? Pegar o celular da mochila vai ser mais um caos desses. Muitas vozes. Vê a lanchonete à sua direita, mas atrás das roletas. Tem sede, pensa em quanto dinheiro investido em tanta burrice, todo esse cimento, terminal novo, mas a lanchonete está do lado de fora das roletas. Niguem que passe pode comer. Está com fome e já não pode mais comprar nada para comer, à sua direta os banheiros – e se o portão se abrir? Daqui há pouco não sabe quanto, pois não pegou o celular para olhar, por que não anda mais de relógio? Vai chegar a barca. Um pouco de fome, mas não pensa em se mover. Os banheiros. Não, não precisa ir agora, já vai chegar a barca. Poderia tomar água. Conversas entrecortadas. Muitas luzes. Começam a andar, as pessoas. Já está melhor, é, já está melhor. Anda também. Respira. Agora é mais fácil, é só seguir. Nem se quisesse conseguiria desmaiar, ou cair aqui de tanta gente. Então, uma conversa entrecortada chega pela nuca até seu ouvido esquerdo. Uma parte de conversa atrás dela, daquelas que se ouve pela nuca: - Vai cair , vai cair, vai cair sim! - Ela não vai cair, é bom até pra oposição que ela não caia. 



......


esse texto deve muito à passagem de Mel e Fabricio pela minha casa --  presenças, alegrias e conversas --  e ao filme dirigido por eles Para que Não nos Sintamos Tão Sós. também à mestra Eliete Miranda que ensina não só a dançar, mas a caminhar na vida. 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Para Bruno, em seu aniversário


Passavam-se já muitas noites sem dormir. O médico dissera que não era possível, que talvez eu estivesse dormindo e não percebesse. Mas aquelas noites sem dormir, a tentativa de respirar. Todas as tentativas eram demais, diziam, faziam demais. Na tentativa de respirar, de encontrar uma posição, um livro, um livro que desligasse.... mas os livros também eram demais! Tão enormes! Me sugavam! Era como se eu deitasse dentro deles, daquelas vozes, letras, triâgulos que as letras faziam. E então naquela noite encontrei Virgínia Woolf e dormi. Antes mesmo de abrir o livro dormi sobre “O tempo passa”. Na manhã seguinte ao acordar me perguntei o que haveria naquele livro que me fizera dormir assim depois de “tanto tempo” e encontrei, na primeira página, essas palavras:

“longe é um lugar que existe
fecho os meus olhos e você desaparece
escuridão improcedente se instala
você não está mais ali
não está em lugar algum
olhos ainda fechados abro a boca
o mundo inteiro está silencioso
enquanto a boca fala
e você não está.
Longe, um lugar em que você existe
longe sua intensidade ofegante
não te invento assim __ longe
a boca segue falando e você longe
a imaginação imaginando, você longe
olhos fechados você nenhuma ficção
não vejo tuas letrinhas mais,
seu dolce far niente em noite bruxa
queimei a tua memória
como queimaram aqueles manequins da toulon
também profanei as vidraças
pixei você e, colérico, te esqueci.
Você desencarnou da minha cabeça
ficou longe. Velha. Sem caroço.
Te beijei. Não você insanamente.
Testei todos os santos-e-senhas
e o longe, ele existiu sempre.
Você era o meu longe...
e eu respirei
a boca abriu
o ar entrou
eu respirei
a sua intesidade ofegante
sopraste a sua loucura miúda
valsaram as estrelas cadentes
continuo respirando
é você meus longes queridos
entra aqui dentro
entra entra
abro os olhos
o mundo inteiro está aí
você está aí ___ sim
o longe é um lugar que existe
e eu estou nele
resirando gemidos
contigo.”

bruno 2013




acordo e respiro contigo. a boca abriu
o ar entrou
respiramos.
Essas palavras são tão mais amplas hoje, assim como a respiração e o ar que elas carregam.
Cantei estrelas massageando os teus pés enquanto conhecias do que era feita toda presença. Das varizes de minhas pernas aos cantos dos pássaros. E uma vida só de presença não cabe, é preciso um fio de grama na boca pra nos conservar equilíbrio, alegria e lucidez. Longe é vasto. Assim como nossas presenças e distâncias. Mas que “el placer que inventamos juntos sea outro signo de la libertad” (Cortazar).