terça-feira, 13 de setembro de 2016

Azul




Era um dia cinza em frente ao mar. Estar ali dizia de algum modo de um porvir. Aquele movimento mínimo que se faz em direção a um futuro ainda desconhecido. Concurso, concours, course… não sabe bem com o que, com quem percorre esse caminho. Com uma parte de si mesmo. Ali não é tão longe, mas é distante o suficiente. Existe um ar de sonho quando se chega a uma cidade sozinhos. Aquilo pode ser esquecido sem que nunca se possa dizer: lembra? E, no entanto, a cama desconhecida, as ruas a conhecer, e aquele bar quase abandonado não longe da areia compõem a memória de um velho que, no século 30, diante do piano, ao tocar algumas poucas notas: lembra. O copo de cerveja e os pensamentos daquele lugar – litoral, chego e já penso em nem voltar mais, quase nem me mexo numa mesa perto do mar – essa coisa esquisita, uma vontade de ficar falando que não lembrava, parece quase aquelas viagens que se faz sozinhos. Estava viajando sozinho. No litoral quando reencontrou naquele dia cinza em frente ao mar algo de si. Algo de sim. Um sim que talvez um dia. No mar, sem âncoras nem coroas.

Tem esses pensamentos enquanto a música faz uma onda. Ondas para quebrar. Descobre que ela era também uma caminhada, course. Aquele movimento mínimo que se faz em direção a um futuro ainda desconhecido. Aquele, que fez ao entrar no ônibus em direção ao litoral. Como uma flecha. Talvez, quem sabe, um dia...

terça-feira, 12 de julho de 2016

Norte de vento noite


Norte de vento noite, aqui o vento
vem escuro escondendo no breu
o peso e a nuance.
Nem sereno cerúleo, nem roxo
carregado.
Aqui vem lento, de preguiça indormível
vem no encontro, sacudindo dos corpos
o equilíbrio e gravidade.
Vem lúdico, lúgubre, lúbrico
escorregadiço.
O vento vem abrigo. Vaza
nas esquinas anunciando, das Bibianas,
a dor, o desvario.
Resiste à dança e enquanto busca chão
ricocheteia
O vento chama: delírio.

Impostor disfarçando a letargia.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

cada mar

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sábado, 7 de maio de 2016

Ressonância magnética



Vejam só, uma máquina de alta precisão que desenha, em detalhes cores e curvas, os traços mais ínfimos de nosso interior pelo encontro da radiação com a matéria, de tão precisa, ao mínimo movimento daquele que é desenhado, borra a imagem. Temos então, um erro de precisão? Ou um problema de definição? Para que existe o foco? Quando alguém desenha um objeto que está à sua frente, a imaginação completa os micromovimentos que o objeto acaba por fazer, ou mesmo, delineia sombras não tão precisas a partir daquelas que, com o passar do tempo, se transformaram. O preciso é o maior detalhe, ou o detalhe visível? Não seria preciso, para sermos mais precisos, deixar que os sons da rádio FM que procuram transcrever o corpo, ao invés disso, o traduzissem?



Entrando no tubo, da câmara de precisão, mesmo antes dos sons que proliferam, um empuxo. O corpo parece aterrissar, descomprimir, adaptar-se à gravidade. Mas está, para os olhos, parado. Para manter a integridade na imersão dos sons, melhor prevenir-se com uma rostificação: isso parece: rock, funk, música eletrônica. Um dos ruídos, uma música budista infindável e em alto volume preenche, ocupa o crânio, balança o fígado. Ritornelo?



Até que, de repetente, sugeriram suspender a sensatez e sistematizar sentidos somente por sentenças. Pensar por palavras parecidas, principiando pelo p., P de Paulo. Paulo procurava patos pelo plebiscito. Plenárias plenas de plebeus produziam problemas próprios. Era esse elo então errático. Eu encontrei elefantes enquanto enviava emissores escaparem. Amanhã amantes armarão armadilhas azedas antes de acalmar as almas. Aquele áudio alarmante ansiava acusar aleluias. Até amanhã amassaria azaleias amarelas?

quarta-feira, 29 de julho de 2015

...


o silêncio e o zumbido estão na cabeça ao mesmo tempo. não é exatamente no mesmo lugar. existe um momento de silêncio a b s o l u t o
e um cigarrear que vem dos ouvidos. ele entra pelo direito e é como se criasse um vácuo no esquerdo. mas, não se engane. por que a cabeça. ela não fecha. ela não acabaqui. ela se conecta com uma luz imensa branca, com um brilho que chega até o peito e alcança uma altura que não é altura essa. também não se engane. tampouco sei o que é engano... dizia: não se enganem por que o rumor, ele não vem só para rumorear, só como o avesso do silêncio. ele vem como uma calma, como uma cama. ele passa, eu já disse, pelos ouvidos e na parte baixa do cérebro, talvez por trás. ele é o pescoço-tronco que mantém esse constante silvo.
o silêncio é uma imensidão que sobe. alguém pergunta: o que você vê ao fechar os olhos? eu sinto esse silêncio. e, abrindo caminho, surgem raios de cores na escuridão.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Golpe da direita




Caminha em direção às barcas procurando um lugar para parar. Há muita gente esse horário no terminal Araribóia. Começa a achar que há mais do que o normal. A bolsa pesada. Pára. Apóia a bolsa no chão. Fixa numa posição. Posiciona o corpo, a coluna, a barriga pra dentro, encaixa o quadril pra não pesar a lombar, tenta relaxar os ombros. Muita gente. Percebe que não está com o corpo posicionado na mesma direção que a maioria das pessoas, está fazendo uma diagonal. Uma diagonal também com a entrada das barcas. Na verdade está na direção da barca, mas não do portão onde as pessoas entram. Ali de onde está pode ver exatamente, numa linha reta, o local onde as barcas atracam. Mas para entrar ficam retas para o portão e depois fazem uma curva, uma outra caminhada. Ali parada, um pouco em diagonal em relação às outras pessoas, pensa na posição da dança, quando caminham no palco, no estrado, no espaço, às vezes param cada um numa direção, a professora fala do olhar, para que se posicionem. Começa a perceber o posicionamento das pessoas ao seu redor, um casal beijando-se escorado na coluna do seu lado direito, um senhor de terno e mochila na sua frente que conversa no whatsapp, os sons, ouve o atracar das barcas, os anúncios das que chegam e os anúncios gerais do termial – é por aqui que a gente chega lá – a sua posição em relação aos outros, pela parte de trás de seu pescoço ouve um homem que fala ao celular – Sim. Confirmada. O lote era nove, oito, quatro, três, quatro, oito, cinco, três, oito, quatro. Sim. Claro. Aqueles eram outros. Sim. Depakote, Lamotrigina, Topiramato, Carbamazepina. Carbamazepina – Medicamentos, logo agora com toda essa gente, os sons e luzes. Não está nada bem. Se sente estranha. Ouvir essa conversa bem agora. Deve ser um sinal. Lembra do posicionamento. Respira. Não muito fundo. Pela barriga, mas sem perder a postura. Aquela que a professora da dança afro ensinou. Expande o olhar. A barca ainda não chegou. Olha pra um lado. Olha pro outro. Para cima. Os movimentos da cabeça e corpo vão como num fluxo, agora o olhar já está meio borrado, não sabe se deveria ter virado a cabeça assim, e se ficar tonta? Os estímulos visuais aumentaram. Mas a percepção da sala também, é um octaedro. Agora vê a tela de anúncio dos horários acima da sua cabeça, próxima barca 18h20, ai céus quanto tempo pra isso? Pegar o celular da mochila vai ser mais um caos desses. Muitas vozes. Vê a lanchonete à sua direita, mas atrás das roletas. Tem sede, pensa em quanto dinheiro investido em tanta burrice, todo esse cimento, terminal novo, mas a lanchonete está do lado de fora das roletas. Niguem que passe pode comer. Está com fome e já não pode mais comprar nada para comer, à sua direta os banheiros – e se o portão se abrir? Daqui há pouco não sabe quanto, pois não pegou o celular para olhar, por que não anda mais de relógio? Vai chegar a barca. Um pouco de fome, mas não pensa em se mover. Os banheiros. Não, não precisa ir agora, já vai chegar a barca. Poderia tomar água. Conversas entrecortadas. Muitas luzes. Começam a andar, as pessoas. Já está melhor, é, já está melhor. Anda também. Respira. Agora é mais fácil, é só seguir. Nem se quisesse conseguiria desmaiar, ou cair aqui de tanta gente. Então, uma conversa entrecortada chega pela nuca até seu ouvido esquerdo. Uma parte de conversa atrás dela, daquelas que se ouve pela nuca: - Vai cair , vai cair, vai cair sim! - Ela não vai cair, é bom até pra oposição que ela não caia. 



......


esse texto deve muito à passagem de Mel e Fabricio pela minha casa --  presenças, alegrias e conversas --  e ao filme dirigido por eles Para que Não nos Sintamos Tão Sós. também à mestra Eliete Miranda que ensina não só a dançar, mas a caminhar na vida.